Os desafios do trabalho híbrido

Os desafios do trabalho híbrido

Engajamento dos colaboradores, comunicação clara e assertiva e preparação da liderança são alguns dos obstáculos que as empresas enfrentarão durante a adoção do novo modelo

Quando os primeiros casos de covid-19 foram confirmados no Brasil, em março do ano passado, as empresas tiveram de correr para implementar o home office e, assim, respeitar as medidas de isolamento social e restrições de circulação. Agora, no entanto, com o avanço da vacinação e as flexibilzações das regras, as companhas começam a experimentar um outro momento, em que o que deverá prevalecer será o trabalho híbrido – parte realizado remotamente, parte presencialmente.

Diversos estudos indicam que esse sistema veio para ficar, e que não retornaremos aos processos tradicionais de antes da pandemia. Segundo levantamento realizado para Robert Half, consultoria de recrutamento especializado, 95% dos executivos acreditam que o rodízio entre o home office e o escritório será um modelo abraçado de forma permanente pelas empresas.

Mas o novo modelo traz diversos desafios. Um deles é a perda de talentos, segundo aponta Eliane Leite, coordenadora dos cursos de Formação em Recursos Humanos e de MBA em Gestão de Recursos Humanos do IAG – Escola de Negócios da PUC-Rio. Com o home office, tornou-se possível contratar pessoas de qualquer localidade – mas, com o retorno aos prédios corporativos, ainda que parcial, isso poderá ser perdido.

“Tem gente que não vai voltar para o presencial em hipótese alguma, ainda que seja parcial. Muitos profissionais mudaram de cidade ou até de país, e não desejam retornar. Esse é um problema que as organizações irão enfrentar”, afirma Eliane.

Outro ponto importante é como as empresas irão engajar a sua força de trabalho para o sistema híbrido. “Questões como ‘Qual o propósito de eu estar aqui’ terão de ser muito bem esclarecidas. E isso terá impactos na estratégia de negócio”, acrescenta a especialista.

Também haverá obstáculos relacionados à qualificação dos funcionários, já que a aceleração digital provocada pela pandemia fez emergir a necessidade de novas habilidades. “Dentro da realidade atual, eles serão avaliados por outros indicadores de produtividade”, afirma Eliana.

A coordenadora acadêmica do IAG pontua ainda que a comunicação será bastante desafiadora no trabalho híbrido. “A comunicação deverá levar em conta todos os steakholders, seja aqueles atingidos pela aplicação presencial, quanto pela digital. E, para que seja efetiva, as companhias deverão adotar processos que deixem rastros para todo mundo.”

Para aproveitar os benefícios do trabalho remoto e do presencial

No início da pandemia, a farmacêutica Zambon, responsável pela produção de medicamentos como o expectorante Fluimucil, teve de correr para colocar seus 210 funcionários das áreas administrativas e de vendas no home office. Nesta semana, um ano e cinco meses depois, iniciou a implementação do trabalho híbrido – 3 dias no escritório e 2 no home office, cabendo ao colaborador escolher como será essa rotina.

Priscila Pellegrine, diretora de RH da companhia, conta que a decisão de operar neste modelo surgiu para aproveitar os benefícios dos dois mundos, o remoto e o presencial. “Houve um ganho de tempo com o home office, e essa flexibilidade traz bem-estar e qualidade de vida, o que casa muito bem com a nossa cultura. Por outro lado, somos uma empresa que valoriza relacionamentos. Acreditamos que manter sistemas para proporcionar interação é importantíssimo.”

Para a executiva, as dificuldades no sistema híbrido começarão a ser sentidas a partir de agora. “Quando fomos para o digital, estava todo mundo no mesmo barco. Agora temos esses dois universos para coordenar. Acredito que o primeiro grande desafio será entender que o remoto tem preferência. Por exemplo, se uma reunião estiver programada com 5 pessoas, e apenas uma delas estiver no seu dia de home office, o encontro será virtual. De olho nisso, precisamos ter sistemas na nuvem e aprovações remotas que de fato funcionem.”

No caso da ODATA, provedora brasileira de serviços de data center, o desafio começou pela escolha do melhor modelo para a empresa. “Há alguns meses, quando entendemos que o trabalho híbrido era uma tendência do mercado, passamos a discutir como iríamos adotá-lo. Especialmente ao perceber que grande parte dos colaboradores queriam voltar a trabalhar no escritório”, afirma Bianca Moreno, gerente de RH.

Segundo ela, a fórmula que será anunciada em breve levará em conta diferentes fatores. “Queremos que seja a melhor para os colaboradores e a empresa, mas sabemos que haverá dificuldades. Uma das principais diz respeito à liderança, que precisará entender e aceitar o novo modelo para fazer a gestão dos times. Além disso, temos de manter a nossa cultura. Conseguimos durante a pandemia e precisamos seguir assim nesta nova etapa.”

A legislação trabalhista é outro ponto de atenção, de acordo com Bianca. A ODATA tem acompanhando as mudanças nas regras, a fim de entender o que é permitido e, assim, poder aplicar da maneira correta. “Temos de ficar atentos também à saúde do colaborador, ainda mais diante dos altos níveis de ansiedade e esgotamento acumulados ao longo de tantos meses em isolamento, e implementar ferramentas tecnológicas adequadas ao trabalho híbrido, para facilitar a jornada”, completa Bianca.

Enquanto não anuncia oficialmente como será o seu sistema, a provedora de data center segue com uma parte da sua força de trabalho (80 dos 153 que atuam no Brasil) na dinâmica do home office, adotado logo no começo da pandemia – a companhia conta ainda com operações no Chile, na Colômbia e no México.

 

Texto original: Renata Turbiani, Época Negócios

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Nokia quer adaptar escritórios para modelo de trabalho flexível

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(Bloomberg) — A Nokia planeja redesenhar seus escritórios globalmente, adaptando os ambientes de trabalho em 130 países para um modelo pós-pandemia mais flexível.

A empresa finlandesa está tentando capturar os benefícios de ter praticamente todos os funcionários trabalhando remotamente nos últimos 15 meses. A partir do próximo ano, cerca de 70% do espaço dos escritórios será dedicado à colaboração e ao trabalho em equipe, que terá a flexibilidade de trabalhar até três dias por semana remotamente, disse a empresa finlandesa de equipamentos para rede 5G na terça-feira.

“A pandemia forçou as organizações a mudar. A tecnologia deu às pessoas as ferramentas para inovar. Em muitos casos, os resultados têm sido bons demais para voltar à velha maneira de fazer as coisas”, disse o CEO Pekka Lundmark. “Estamos acelerando nossa transição para nos tornarmos um local de trabalho global totalmente híbrido.”

As novas regras serão aplicadas a todos os funcionários – 92.000 em todo o mundo no ano passado – que terão um “aplicativo de escritório inteligente” para reservar espaços de trabalho e comodidades no escritório. A nova política segue uma pesquisa com respostas de mais de um quarto de seus funcionários, onde 91% dos entrevistados disseram que mantiveram ou aumentaram sua produtividade durante o tempo de trabalho em casa e queriam continuar trabalhando em um ambiente híbrido.

Alguns locais piloto, incluindo escritórios em Dallas, Cingapura e Budapeste, já foram reconfigurados, disse a Nokia.

Matéria de: Kati Pohjanpalo

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Google muda para modelo de trabalho híbrido

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Isso resultaria em 60% dos Googlers trabalhando juntos no escritório alguns dias por semana, outros 20% trabalham em novos escritórios e 20% trabalham em casa.

Sinalizando uma mudança em direção a um modelo de local de trabalho híbrido, em um e-mail enviado aos funcionários, o CEO do Google, Sundar Pichai, disse que a empresa mudará para uma semana de trabalho híbrida, onde a maioria dos Googlers passam aproximadamente três dias no escritório e dois dias onde trabalham melhor.

Isso resultaria em uma força de trabalho em que cerca de 60% dos Googlers trabalham juntos no escritório alguns dias por semana, outros 20% trabalham em novos escritórios e 20% trabalham em casa.

Pichai acrescentou ainda: “Como o tempo no escritório será focado na colaboração, suas áreas de produto e funções ajudarão a decidir em quais dias as equipes se reunirão no escritório. Também haverá funções que podem precisar estar no local mais de três dias por semana devido à natureza do trabalho. ”

A ideia, de acordo com a gigante da tecnologia, é dar a todos mais flexibilidade na vida e mais opções de trabalho.

Quando se trata de flexibilidade, as seguintes iniciativas estão em questão:

  • Semanas de trabalho em qualquer lugar: no futuro, os Googlers poderão trabalhar temporariamente em um local diferente de seu escritório principal por até 4 semanas por ano (com a aprovação do gerente). O objetivo aqui é dar a todos mais flexibilidade em relação às viagens de verão e férias.
  • Tempo de foco: as áreas de produto e funções também oferecerão horas de foco, portanto, limitamos as reuniões internas durante os momentos em que as pessoas precisam estar atentas aos projetos.
  • Dias de redefinição: continuaremos oferecendo dias de “redefinição” extras para ajudar os funcionários a se recarregar durante a pandemia de 2021. 

A mudança ocorre quando Pichai acredita que o futuro do trabalho é a flexibilidade e as mudanças acima são um ponto de partida para ajudar seus funcionários a fazer o seu melhor trabalho e se divertir fazendo isso. À medida que as economias começam a se abrir em lugares onde a pandemia não está aumentando, o trabalho híbrido está se tornando um modelo preferido para as organizações.

 

Texto original: 

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O escritório do futuro segundo a Dell Brasil: trabalho híbrido e inovações tecnológicas

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Para Diego Puerta, general manager da companhia, a busca pelo equilíbrio entre trabalho e vida pessoal deve marcar o pós-pandemia

O regime híbrido de trabalho tende a ganhar espaço entre as empresas no pós-pandemia, prevê Diego Puerta, líder da Dell Technologies Brasil. “O cenário de isolamento social tem acelerado a transformação nos modelos de trabalho. Com a migração em massa dos profissionais para o home office, as organizações públicas e privadas perceberam a possibilidade de, por meio da tecnologia, garantir que as pessoas sigam produtivas e colaborando à distância”, diz ele. 

“O escritório do futuro precisa oferecer tecnologias que garantam que as pessoas se comuniquem e colaborem de maneira híbrida”, explica. “A experiência do profissional que está no escritório durante uma reunião precisa ser a mesma daquele que está à distância – o que vai exigir que as empresas invistam em inovações tecnológicas, como a realidade aumentada.”

O executivo da multinacional de tecnologia acredita que a busca por maior equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal deve marcar o novo momento. “Em um cenário de pandemia, muitas vezes os colaboradores têm dificuldades em estabelecer limites de horário entre atividades profissionais e pessoais”, diz. “No entanto, com a normalização, as empresas devem cada vez mais priorizar políticas e ações que garantam um melhor equilíbrio de vida para os funcionários, em um ambiente cada vez mais digital e conectado.”

Muito além do local de trabalho, esse novo olhar deve impactar também os modelos de liderança. “O papel de um líder mais empático tende a ser um atributo cada vez mais valorizado”, afirma Diego. “Ao mesmo tempo em que a pandemia acelerou a transformação digital da sociedade e da economia, afetando a forma como trabalhamos, vivemos, nos relacionamos e fazemos negócios, a crise também passou a exigir um maior cuidado com as pessoas.”

O executivo completa: “A tecnologia tem o poder de impulsionar e transformar a vida das pessoas, mas para que isso aconteça, é necessário um olhar humano das lideranças de empresas e do governo. Assim é possível combater a exclusão digital e criar oportunidades para que mais brasileiros utilizem a tecnologia como fator de inovação, contribuindo para o desenvolvimento pessoal, profissional e social.”

 

Texto original: Marianna Gualter para Época Negócios

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Segurando vários pratinhos: home office eleva produtividade – a que custo?

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A pandemia acelerou a adoção de robôs, inteligência artificial e outras tecnologias que, em teoria, liberam os trabalhadores de tarefas manuais ou repetitivas para se concentrarem na produção de maior valor

 (Bloomberg Businessweek/BLOOMBERG BUSINESSWEEK)

“O verdadeiro potencial para uma revolução é trabalhar em casa”, diz Robert Gordon, professor da Northwestern University. Gordon, cujo livro de 2016 The Rise and Fall of American Growth (A Ascensão e Queda do Crescimento Americano) argumentou que as tecnologias atuais, como o iPhone e a internet foram muito menos transformadoras do que as inovações anteriores, como a refrigeração ou o encanamento, e é rápido em adicionar uma advertência: “Mas vai levar muito tempo para que a economia se ajuste nas áreas que estão sendo duramente prejudicadas pelo trabalho em casa, como transporte público e prédios comerciais nos centros das cidades. ”

Da mesma forma, algumas nações podem ser mais favorecidas do que outras. Nos Estados Unidos, o ritmo do aumento na produtividade total dos fatores – medida que explicitamente descreve os efeitos da inovação tecnológica – subiu de uma média de 0,6% de 1990 a 1995 para quase 2% em média de 1996 a 2004, alimentado em grande parte por informatização e internet, diz Kindberg-Hanlon, do Banco Mundial.

No entanto, o crescimento da produtividade na Europa apresentou tendência de queda no mesmo período, por motivos que incluíram uma adoção mais lenta de novas tecnologias da informação e mercados de trabalho mais restritivos.

“Embora muitas economias avançadas estejam bem posicionadas para ver a produtividade melhorar em alguns setores, muitas economias emergentes e em desenvolvimento podem ter dificuldade em colher esses benefícios devido à escassez de qualificação, falta de infraestrutura, como internet de alta velocidade e outros facilitadores de conectividade digital, e acesso deficiente a financiamentos”, diz ele.

O otimismo sobre um aumento da produtividade pode ser moderado assim que tivermos uma compreensão melhor da escala dos destroços econômicos deixados pela pandemia, diz John Van Reenen, Presidente da Escola de Economia da Universidade de Londres. “Haverá alguns benefícios de produtividade”, diz ele.

 

Texto Original: Enda Curran, Bloomberg Businessweek

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